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Jornada23

Jornada23

Viver noutro país

 

Não é fácil e também nunca ninguém disse que ia ser. Não posso falar das outras cidades, se seria diferente ou não mas Londres…oh, Londres é muito difícil nuns dias e tão fácil em outros.

Londres é tudo num só. Londres é risos, fotografias, lojas, luzes, crianças, moda, alegria, nacionalidades, simpatia, oportunidades. Londres é chuva, frio, trânsito, frieza, saudades, distância, poder.

Estar aqui é ser um ser, num lugar nenhum. É não pertencer e sentir que ninguém pertence a nada de verdade. É não captar o som de um inglês num autocarro a abarrotar, ouço tudo, menos o inglês. Não entendo nada, por isso coloco os phones nos ouvidos, já ouvi muitas línguas ao longo do dia. Não são só os turistas, são os habitantes. É olhar para a rua de casa e perceber que aquilo não me traz lembranças, pois não foi lá que cresci. É não saber onde estão amigos de anos, pois não foi cá que os fiz.

É tentar lidar com a distância. Com as fotografias online da família reunida, nada mudou eu é que já não faço parte do retrato de forma frequente. É continuar a fazer parvoíces para os pais, mas através de uma webcam. É ouvir a avó chorar por a neta não estar presente. É ir no autocarro e pensar se fiz a escolha certa, se vou tirar benefícios daqui , se se hão de orgulhar de mim um dia?

É ter independência e responsabilidades. É mostrar que sei fazer aquele comer que a minha mãe sempre quis ensinar e eu fazia-me de surda e desinteressada. É tentar manter, sobreviver e viver. Não é mostrar que comprei isto ou aquilo, é mostrar que estou a conseguir construir a minha vida, ser crescida, mesmo à distância.

É custar ter visto a avó partir e saber que ainda tenho dois, aos quais sou muito ligada, mas que não posso estar com eles como antes estava. Ai, e o meu avô que adora contar as histórias e cantigas e muitas não as sei de cor.

É sentir falta do calor, dos tops e chinelos nos pés. Sentir falta da água salgada e dos enchidos. Da dourada e do carapau que o meu avô fazia de propósito aos Domingos para mim, acompanhado da batata à murro. É sentir falta de acordar e ver o meu cão, abraçá-lo e mimá-lo. É sentir falta da língua, dos cheiros, dos costumes. É sentir falta dos cães dos meus avós, malucos que só eles sabem, chatear os primos só porque tenho esse direito. 

É cada vez mais sentir-me afastada do meus país e acostumada ao que me acolhe. É pensar em Portugal com nostalgia mas saber que lá não teria esta cidade de oportunidades, estes jardins gigantes, esta multiculturalidade e diversidade, aqueles iogurts que já nos acostuma-mos, o autocarro que vai a todo o lado e que aparece em menos de 5 minutos, os mercados e feiras, os museus gratuitos. É sentir que posso ser profissionalmente mais feliz, embora ainda ande por caminhos distantes.

É isto. Adoro o meu país, e aprendo a adorar o que me acolhe.

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