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jornada23

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Esperança na Humanidade - Dona Gabriela

Esta história remonta a 2013.

Eu e o príncipe decidimos que seria a altura ideal para fazermos umas férias só os dois. De início ponderámos ir para o Algarve (ah! Quem não adora o sul do nosso país?) mas, devido a não estarmos preparados financeiramente para esta zona turística resolvemos pesquisar outras alternativas. Na procura encontrei uma festa que existe no Norte,  "Expofacic" uma feira com imensas diversões, atuações (entre elas de artistas que nos interessavam bastante). Em dois dias já estávamos prontos para a nossa viagem o destino era a Praia da Tocha (que saudades!), o meu pai ainda tentou sensibilizar-me um pouco dizendo que o boguinhas não iria aguentar tal viagem, mas acreditei que sim.

O dia correu logo mal, sai de casa e passados poucos segundos noto que o pneu estava furado ..boa para começar a viagem! Como não tinha ninguém que me ajudasse a mudar o pneu andei devagar até à casa do príncipe, mudámos e ainda tivemos que ir a uma oficina antes da partida. O boguinhas não nos quis facilitar a viagem e, quase à chegada do destino começa a sobreaquecer de 5 em 5 km (mais coisa, menos coisa). Era parar o carro, trocar a água, deixar o carro arrefecer e voltar à estrada. Quando chegámos ao parque de campismo já não conseguimos fazer viagem para Cantanhede para ver os primeiros artistas da nossa lista. Ficámos 2 dias sem tocar no carro, só praia - tenda - praia - passear a pé. Os cerca de 10 dias passaram-se relaxadamente até ao dia da partida.

Sentia um nervoso miudinho sabendo que o carro poderia não aguentar aqueles km todos, lembro-me de figuras lindas que eu e o príncipe fazíamos dentro do carro para dar balanço nas descidas (tipo que estávamos a remar dentro do carro), as pessoas riam-se tanto! Com isto, o carro começou a sobreaquecer de 10 em 10 km, posteriormente 5 em 5 km e no final já nem 1 km aguentava, foi a gota de água tínhamos que chamar o reboque. Olho para o meu telemóvel, bateria quase no fim, o telemóvel do príncipe nem ligava já. Primeira chamada foi para o meu pai, expliquei a situação e a segunda foi para o reboque, digo segunda, mas a verdade é que a chamada nem a meio chegou e fiquei sem bateria.

Aquilo ali ao pé era uma aldeia com casas tão afastadas! Reparámos num senhor idoso à distância, fomos atrás dele e perguntámos se nos podia fazer o favor de carregar um pouco o telemóvel, o senhor levou o telemóvel para dentro de casa, 5 segundos depois devolveu...agradeci, que deveria fazer? O telemóvel nem 10 segundos aguentou ligado.

Pegámos no carro e tentámos avançar para uma zona com mais habitação. Vimos um restaurante, com uma casa ao lado. Parámos no restaurante, batemos à porta - nada. O dia começa a terminar, tinha deixado a seguradora a meio de uma chamada e os nossos pais sem modo de nos comunicar. Depois de voltarmos a insistir a porta da casa pegada ao restaurante abre-se, de lá sai uma senhora idosa e com um ar autoritário pergunta se precisamos algo do restaurante. Expliquei à senhora a situação, afinal o restaurante era do filho dela mas já estava fechado. A senhora vivia isolada, ali apenas com a casa perto da estrada mas deve ter entendido que estávamos mesmo "tramados". A senhora, D. Gabriela como vim a saber posteriormente, deixou-me entrar em sua casa - pediu para o príncipe ficar no carro pois como já teve experiências más com homens desconhecidos tinha medo de o deixar entrar. Fiquei pelo menos 2h na casa desta senhora, ela fez chá para os dois, ela apresentou o seu companheiro canino, ela deixou carregar o telemóvel e contatar o reboque e os nossos pais, ela foi o resgate ali no momento, ela "safou-nos", a nós desconhecidos.

Quando o reboque chegou ela trouxe-me umas calças de ganga acabadas de comprar, a noite já estava cerrada e eu estava vestida com uns calções. Aceitei de bom grado (embora fosse cerca de 6 números acima), ela deu-nos o número de casa pois queria saber se tínhamos chegado bem ao nosso destino e desejou-nos as maiores felicidades na vida. Abraçou-nos e despediu-se como se de amigos fossemos. Há dias que penso na D. Gabriela, há dias que penso como uma pessoa que naquele momento poderia ter sido um alvo tão vulnerável nos dias que correm decidiu abrir a sua porta e auxiliar. Há pessoas que, por mais que só a tenhamos visto uma vez na vida, nos marcam e nos dão exemplos de bondade humana.